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domingo, 8 de julho de 2012

"Ex-votos: testemunhos de gratidão"

por Aninha Duarte.

Ex-voto- pintado / Anônimo / datado de 1774

Oferecido ao Bom Jesus de Matosinhos – Congonhas do Campo / MG / Brasil.
Foto: Aninha Duarte 



Ex-voto pintado / Anônimo / datado de 1899
Oferecido ao Bom Jesus da  Piedade da Piedade
Elvas / Portugal.
Foto: Aninha Duarte 


Ex-voto pintado / Anônimo / datado de 1828
Oferecido ao Bom Jesus da  Piedade da Piedade
Elvas / Portugal.
Foto: Aninha Duarte


Ex-voto pintado / Anônimo
Oferecido ao Senhor  Jesus da  Piedade da Piedade
Elvas / Portugal.
Foto: Aninha Duarte


Sumariamente, é importante salientar que “ex-voto” em latim significa “consoante a uma promessa” ou “extraído de uma promessa”. Promesseiro é aquele que faz um pedido de ajuda aos Santos, às Marias e aos Senhores para obter curas difíceis e até impossíveis, ou ainda contra diversos tipos de aflições. Caso ele seja contemplado com a graça ou milagre, o “intercessor” receberá um objeto em satisfação da súplica atendida. Dessa maneira, o agraciado ou o milagrado oferece ao seu intercessor o ex-voto, que é representado por meio de pinturas, desenhos, esculturas, fotografias e demais objetos do cotidiano - “meras coisas”. 

Os ex-votos podem ser produzidos em vários tipos de materiais, suportes, cores, formas e com motivações diversas. Em sua maioria, partes do corpo humano, esculpidos em cera, madeira ou parafina, bem como pintados sobre madeira ou folhas de flandres. Há ainda cabelos trançados, aparelhos ortopédicos, vestidos de noiva, cruzes, além de outros confeccionados em materiais de naturezas diversas. Esses objetos heterogêneos são depositados nas Salas de Promessas (também conhecidas como Salas de Milagres ou Salas de Ex-votos). Eles podem ser encontrados também nos “cruzeiros de acontecidos”, implantados nas beiras das estradas. Esses objetos são sempre expostos em locais públicos, para testemunhar que o voto foi pago. Essa forma de devoção, que teve grande efervescência principalmente no século XVIII, na Europa, continua ecoando por vários outros países (destacadamente em países de tradição latina) até a atualidade. 

Na pluralidade de símbolos e signos que se encontram na iconografia dos ex-votos - “arte dos milagres”, emolduram-se frações de momentos agônicos, doridos, céticos e quase niilistas, que levam o homem a buscar na medicina da fé o antídoto para derrotar as desarmonias da carnalidade e da espiritualidade e prorrogar a vida, mesmo que de forma temporária. Esses objetos-sujeitos arquivam petições de muitas histórias de vida. Suas imagéticas mostram o desespero e o desamparo do homem frente flagelações e enfrentamentos diários, tais como acidentes, assim como o agradecimento diante de conquistas profissionais e afetivas. As doenças somam o maior número da representações votivas. Os ex-votos podem ter grande valia como fonte documental histórica. 

A oferta votiva está fundada num gesto de amor, no desejo infinito de retribuir a gratidão do beneficiado, seja o agraciado um homem público ou um cidadão comum, anônimo, um abastado ou carente. O ex-voto é uma retribuição. Não é uma compra e venda de favores entre o suplicante e o suplicado. No vínculo criado entre eles, o do suplicante é a fé, o do suplicado, a misericórdia. A misericórdia divina é fundada na gratuidade. O desejo de retribuir, de presentear a graça, nasce do sentimento de gratidão do suplicante ao ver que sua súplica foi atendida. 

Os ex-votos são imagens ambivalentes, que nasceram do apelo, do desespero, do drama e do medo e se tornam objetos-dádivas. Dádivas divinas para com os promesseiros e dádivas dos promesseiros para com o Divino. 

Nota-se que fé é um sentimento atemporal. Os ex-votos são resultantes de atos de fé desse sentimento que não se esgota no decorrer dos anos e dos séculos. O que se alteram são as formas de expressá-la em razão das modificações, dos “modos de vida”, dos “modos de ver”, das formas de dialogar com o sagrado. 

Dentro desse imaginário, quase tudo poderá vir a ser um ex-voto. Na legítima defesa da vida pela fé, tudo é explicado pela lógica de quem a possui.

Aninha Duarte 


Texto Publicado no Boletim – LUMEN VERITATIS, N. 25 – maio de 2012 

Universidade Católica Portuguesa – UCP- Portugal.





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