EDITOR : ALEXANDRE FRANÇA
COLABORDORES : ANDRÉ REIS E BETH SHIMARU

sexta-feira, 20 de julho de 2012

"Último Tango em Paris (1972)"


por Ingrid Assis P. Oliveira

2. Sob as lentes de Bertolucci: O amor...do cinema

Tango: uma dança que nescessita de perfeita sincronia entre o casal para fluir. Mescla o drama, a paixão, a sensualidade, a agressividade. E é sempre totalmente triste. Como dança, é “duro”, masculino, sem meneios femininos. A mulher é sempre submissa. Segundo Discépolo, "o tango é um pensamento triste que se pode dançar.”
O tango não deixa de ser a representação de uma triste história entre dois amantes. Amor. Sexo. O atrito entre os corpos, o ato mais íntimo entre dois corpos. Calor.

“Útimo tango em Paris” é uma reflexão profunda sobre os significados do sexo e do amor. Censurado na época em que foi lançado (década de 70), foi rotulado como um dos filmes mais polêmicos já lançado até então, classificado muitas vezes como pornográfico. Sua verdadeira complexidade nos bons diálogos da trama acabaram sendo deixados de lado.

A sexualidade, apesar de ser o aspecto mais presente durante o filme, não é aquilo que o define como um clássico. Bertolucci criara um filme intimista, uma tentativa de falar abertamente sobre coisas que a sociedade prefere ver trancadas a sete chaves.”Último tango em Paris” trata da humanidade, dos tabus que estamos acostumados a esconder.


O filme começa com dois desconhecidos, que ao acaso, encontram-se em um apartamento vazio e sem dizerem seus nomes, fazem sexo, conversam, brigam, e procuram um sentido para suas vidas. Ao som extremamente sensual do jazz de Gato Barbieri, ele (Marlon Brando) está em uma crise porque a mulher acabara de cometer suicídio. Na verdade, um homem solitário à procura dele mesmo, sussurrando e clamando por um sentido para todos os absurdos que encontra pelo caminho. Ela (Maria Schneider) está em crise por não saber se o futuro que deseja para si é um casamento com um jovem cineasta. Para ele, o mundo acabou, as coisas perderam o sentido. Para ela, a vida está apenas começando, os sentidos ainda são bastante complicados. Entre dois seres tão diferentes, uma ponte: o sexo.


O poder de tensão é tamanho, que nem ela mesma sabe o porquê de continuar voltando no apartamento para novas aventuras. Já Paul, a morte ainda não compreendida de sua esposa faz com que ele crie certo desprezo pela figura feminina.

O apartamento tem papel fundamental ao significado desse “relacionamento”. Sem móveis, sem história, sem passado ou futuro. Tudo é relevante. Não há excessos. Tudo que seria excessivo fora descartado, seja a mobília, sejam os nomes. Um refúgio, onde os protagonistas escondem-se da própria vida de cada um. Ou seria dentro deste apartamento a própria vida? Lá, vivem uma vida sincera, aberta, que eles nunca veriam do lado de fora.


Será que o único modo de conhecer uma pessoa seja não a conhecendo? O mistério cria um contexto de intimidade desnuda, sem constrangimento do que realmente são, onde não há o que se esconder, por mais que todo o resto esteja escondido. Escondido atrás de um nome, de um voto de amor, de uma reputação e até mesmo atrás de um passado.  

Dentro do apartamento, estamos em um lugar onde as instituições não chegam, onde não há coerção. Os personagens são guiados pelo instinto, pelo sexo como expressão máxima de vontade, como algo natural, uma verdade crua, parte do animal homem.

As polêmicas cenas filmadas por Bertolucci, e bastante explícitas para a época, são fundamentais para a compreensão do tipo de relacionamento possível para aquele casal tão perdido, tão improvável. E como não comentar sua cena mais famosa e até mesmo perturbadora de sexo.

Durante a cena, Marlon Brando diz aos ouvidos da aflita Maria Schneider:

“Vou falar-lhe de segredos de família, essa sagrada instituição que pretende incutir virtude em selvagens. Repita o que vou dizer: sagrada família, teto de bons cidadãos. Diga! As crianças são torturadas até mentirem. A vontade é esmagada pela repressão. A liberdade é assassinada pelo egoísmo. Família, p**a de família!” 

É como se um professor que não tivesse mais qualquer ilusão, que não acreditasse em mais nada do que ensinou a vida toda, tentasse dar uma última aula. Uma aula desesperada, dolorida, verdadeira. À aluna, subjugada, restava apenas perder sua inocência. Inocentes têm um nome, sobrenome, CPF e família constituída. Os personagens de “O último tango em Paris” não têm nem um nome um para o outro. Como inocentes poderiam ser felizes assim?


E a aparente ingenuidade da personagem de Maria Shneider revela-se uma face perversa, que anima a loucura que predomina essa realidade paralela. Os dois juntos acabam por transformar o apartamento em uma verdadeira metáfora da fuga e da ocultação. É alimentada uma relação instável, em que predomina um pacto de ignorância mútua.


Por outro lado, o apartamento não é um lugar feliz. E como em um triste tango, os protagonistas acabam por ser torturarem com seus anseios, em busca de algo que parecem não encontrar. Eles acabam se prendendo a este espaço de modo obsessivo. O apartamento é só um espaço. Espaço que acaba por angustiar o casal, cada um com seus anseios próprios anseios e tormentos.
Fora do apartamento, a vida de cada um é outra. Lá eles ganham nome. Jeanne (Maria Schneider) tem um noivo, Tom (Jean-Pierre Léaud). O noivo quer transformar o amor deles em cinema. Talvez seja a metáfora mais completa para expressar a artificialidade dos relacionamentos. Relacionamentos convencionais, que se passam “do lado de fora”. Todos os beijos que ele dá em Jeanne são cinematográficos. Seus encontros, suas declarações de amor, até seu pedido de casamento. Tudo é cinema, é atuação. É como se tudo fosse uma representação, uma imagem, uma reprodução.

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Paul (Marlon Brando) se mostra um ser completamente solitário, fechado, retraído. Um americano que mora em Paris, desnorteado. Uma pessoa rude, que parece nao crer no amor verdadeiro. Acabara de vivenciar o suicídio de sua esposa e procura entendê-lo, do qual vai ser recuperando emocionalmente durante o filme. Em uma cena, Paul fala com o cadáver de sua esposa no velório. Alterna entre momentos de raiva, desorientação e, finalmente, uma terrível reconciliação consigo mesmo.


Qual das duas vidas que cada um vive é a verdadeira? A trama chega a um ponto em que essas vidas deixam de ser paralelas e começam a interferir uma na outra. Jeanne está um uma cena do filme do seu noivo, que ao mesmo tempo é a vida real de ambos, em que está experimentando o vestido de noiva e ela define o casal como trabalhadores vestidos de macacão e que repetidamente consertam o casamento como se conserta o motor de um carro. Olha para a camera e define, para o noivo, o amor: “os trabalhadores vão a um lugar secreto. Eles tiram os macacões e viram homens e mulheres de novo. E fazem amor”.


Num rompante, ela abandona as filmagens e foge para o apartamento declarando sua paixão a Paul. Ele a testa, a instiga. E mais uma vez se entregam aos prazeres carnais sem limites.


Em seu próximo retorno ao apartamento, Jeanne não o encontra mais, desespera-se e, de um modo muito simbólico, acaba levando seu noivo ao apartamento e propõe que passem a morar lá. No apartamento, Jeanne começa a narrar o que seria a vida deles naquele local. Nada precisaria ser mudado alí, e imitando um avião, como uma criança, começa a percorrer o apartamento. Tom a interrompe ao dizer que o apartamento não serviria. São adultos, e alí deveria haver espaços para brincadeiras. Jeanne concorda em procurar um outro lugar, mais “adequado” à vida do casal. Como se desistisse de sonhar, de brincar.

Na verdade, Paul não a tinha abandonado. Ele está pronto para retomar sua identidade. Paul deixa o apartamento: quer viver normalmente de novo, e quer Jeanne como uma pessoa. Ele resolvera que começariam tudo de novo. E o mais importante, sem o apartamento. Uma vida nova, do lado fora. Ficar apenas no anonimato não o satisfaz mais. 

Agora Paul e Jeanne encontram-se no mundo exterior. O cenário dos amantes agora torna-se a maravilhosa Paris. E a cidade passa, então, a ser a continuidade do triste apartamento. Um palco perfeito para uma estória trágica e que sinaliza a eterna incomunicabilidade entre o homem e a mulher. E o desprezo da dupla de personagens centrais aos outros, aos terceiros causa a impressão de que é Paris que está dentro do apartamento e não o contrário.


Ele decide contar tudo a sua paixão parisiense. “Conhecerás a verdade e a verdade vos libertará”. E aí começa o triste e catastrófico ritual do último tango. O que talvez fosse somente a primeira dança, acaba por ser a última.

Ao contrário das expectativas, Jeanne não demonstra qualquer alegria ou entusiasmo, mas sim uma agonia inexplicável. O vazio do apartamento fora agora substituído pelo vazio da vida. E por mais que a jovem durante todo o filme quisera e tentara conhecê-lo, não lhe agradara nem um pouco o amante Paul. O que seria o início de um amor torna-se na verdade, seu fim.


Jeannie e Paul vivem uma utopia. Neste mundo exterior, “real”, Jeanne vê Paul como um homem de meia-idade derrotado – um gerente de um hotelzinho vagabundo. Todo o sentimento lúdico e perfeito que fora criado na cabeça de Jeannie vai por água abaixo. A realidade cruel e impulsiva não mais importa. E Jeanne, com apenas 20 anos, se atirou numa loucura orgiástica, compartilhou-a, e agora quer se livrar disso.

Nada deveria ser dito. Toda a revelação sobre a vida de Paul destrói o mistério, como se confirmasse a decisão de Jeanne de se casar com o outro, o diretor do filme de sua vida e seu falso e feliz. Por outro lado, o amor impossível e real termina em meio a uma dança perigosa e trôpega ensaiada por dois delirantes bêbados. “Bonne chance dans le dernier tango!”, propõe a presidente do júri do concurso bizarro de dança.


Jeanne decide não mais aceitar o amor louco que tomara conta de si própria e sorrateiramente atira à queima roupa no amante de meia-idade. Paul morre lentamente e tem o seu final diante de uma Paris que o ignora, como a um indigente.


Sem dúvida, “Último tango em Paris” é uma das maiores obras já realizadas sobre o homem moderno e o vazio existencial. Uma poesia linda e amargurada sobre duas opções únicas: o mediocre vazio de um apartamento sem mobília ou o imenso vazio de uma vida sem sentido. E essa escolha rata-se de uma esperança. Qual das opçoes é a vida real. Qual é a sua catarse? 

É o que torna a última cena tão enigmática. Jeanne ensaia o que falará ao noivo sobre o homem morto em sua varanda (de seu apartamento cheio de móveis): “Eu não sei quem ele é”. “Não o conheço”. Seriam estas frases falsas ou verdadeiras? Toda a vivência dessa paixão havia se passado com um mero desconhecido? 



FichaTécnica: 

Título Original: Ultimo Tango a Parigi 
Tempo de Duração: 123 minutos 
Ano de Lançamento: 1972 
Direção: Bernardo Bertolucci 
Roteiro: Bernardo Bertolucci e Franco Arcalli 
Música: Gato Barbieri 


Elenco: 

Marlon Brando (Paul) 
Maria Schneider (Jeanne) 
Jean-Pierre Léaud (Tom) 


Por Ingrid de Oliveira
Julho 2012

5 comentários:

  1. cara isso e bastante legal

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  2. Análise muito boa. Deu vontade de rever o filme. Parabéns!!

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  3. A natureza humana retratada sob a ótica da sétima arte fica mais tangível. Boa análise. Bom saber como vc tem crescido ao longo dos anos.

    Ricardo

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  4. Bastante abrangível a sua análise. Sem dúvida uma boa colunista

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