EDITOR CHEFE : Alexandre França
EDIÇÃO E FOTOS EXCLUSIVAS : André Reis
ILUSTRAÇÕES : Elizabeth Shimaru, Hélio de Lima
COLABORAÇÃO : Vânia Beatriz A. Vilela

quarta-feira, 4 de julho de 2012

"Balé de casa nas ruas do mundo"


por Rejane Paiva.




Em Março deste ano, tive uma grata surpresa: a apresentação da companhia uberlandense Balé de Rua em Zurique. Numa semana em que as temperaturas beiravam os 17 graus negativos, antegozei a perspectiva de presenciar aquela imensa energia solar que só a gente dos trópicos tem ao dançar. E eu não estava errada.


Havia pelo menos 12 anos que eu vira o grupo ao vivo pela última vez. Depois disso, só notícias esparsas em jornais, algumas pequenas participações que pude ver na Globo Internacional, ou referências de amigos. Mas nada se compara à emoção de quase poder palpar o pulso dos bailarinos num espetáculo intenso como aquele. E eu não podia deixar de compartilhar minhas impressões da plateia, como público de arte.


Ao longo destes anos, o grupo foi gradativamente encontrando sua identidade mineira, brasileira, a partir do seu início baseado numa tradição mais americanizada. Quem não se lembra da verdadeira febre da dança de rua que invadiu os bairros da cidade nos longínquos anos 80?

Mas o que fez e faz da Cia. Balé de Rua um grupo tão diferente de tantos outros que surgiram então? Ao meu ver, foi o saber reinventar-se. A incorporação do samba, da malandragem, da capoeira, do congado e de seus movimentos na sua linguagem artística de dança. Quando o grupo fala da sua verdade, da vida na sua “aldeia”, passa a ter algo a dizer ao mundo. Fala para o mundo e encontra interlocutores em todo o planeta. E o mais interessante é que as antigas referências do hip hop, do rap, do break e do desafio no improviso continuam lá. Fizeram uma verdadeira apropriação antropofágica da Street dance. Os movimentos anteriores permaneceram, mas foram ampliados e ressemantizados. E a eles se somaram os movimentos que só quem tem as raízes negras do samba, do carnaval e do congado, pode explorar com tanta propriedade.


Outra mudança clara foi a percepção do corpo como se fosse a própria casa, lugar onde se canta, toca, joga, ora… Não se trata mais apenas de dançarinos, e sim de dançarinos-cantores-rappers-ritmistas-atores... seres humanos criativos em movimento de expressão. O grupo parece ter descoberto que no palco cabe a totalidade do ser. E por que não caberia?


Não bastasse a magia do samba presente no espetáculo, foi com o som das patangongas que meu coração veio à boca: sons de outros tempos, a lembrança dos negros batendo os tambores dias e noites a fio correndo as ruas da cidade, seguidos do som dos chocalhos de pernas, o entrelaçamento das fitas, a festa das cores, o estandarte, a cantoria sem fim, o cansaço, o suor, a fé … era fechar os olhos e ver o céu azul emoldurando a Igrejinha do Rosário. Bateu-me uma saudade enorme de Uberlândia, sua gente, suas tradições. Tantos ternos de congados e moçambiques!… E aquele verso que nunca me sai da memória: “Essa casa cheira a botão de rosa, flor de laranjeira”.


Criativo, rico, energético, explosivo. Para mim, particularmente, ainda pleno de memórias. Um espetáculo que fez o público de Zurique aplaudir incansavelmente de pé e até mesmo patear a performance no final. Já que esse não é um hábito muito comum no Brasil, é bom que se diga que patear é um costume antigo na Europa, muito temido nos espetáculos operísticos séculos atrás, quando o público vaiava um cantor ou cantora batendo os pés no chão, geralmente de madeira, fazendo um barulho ensurdecedor que impedia qualquer mortal de continuar cantando naquelas condições. Com o tempo esse hábito foi mudando e, apesar de hoje ainda existir a manifestação dentro de um cunho mais negativo, o costume tem sido usado na maioria das vezes para demonstrar apreço. É aquele momento onde o aplauso só não basta, ficar de pé e continuar aplaudindo é insuficiente, e gritar “BRAVO!” também não chega. Então faz-se tudo isso ao mesmo tempo e ainda bate-se os pés no chão para dar a medida do apreço aos performers. Como saber se é aprovação ou reprovação? Simples: quando é durante o número e feito para atrapalhar, seguido de palavras pouco amáveis, assovios, vaias, é reprovação. Quando é no final, entre aplausos e palavras de exortação, é a coroação mais alta do trabalho de um artista, aquela que o move a vida inteira na tentativa de alcançá-la.


Foram 3 semanas em cartaz com casa cheia, invariavelmente contando com a aclamação do público. Isso é um grande feito, considerando-se a numerosa oferta e o alto padrão de espetáculos na Suíça.


E você? Tem aproveitado para assistir à Cia. Balé de Rua em nossa cidade, ou ainda reza pela cartilha de que “Santo de casa não faz milagres”? O esforço e o mérito de nossos artistas merece o reconhecimento noutros países, mas antes de mais nada, deve contar com o apoio, respeito e reconhecimento nossos, que somos de casa. VIDA LONGA AO BALÉ DE RUA!



2 comentários:

  1. Parece ser muito legal essa apresentação, até fiquei com vontade de assistir. Tudo que mexe com o imaginário é muito lindo....

    http://felizanovelho.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  2. Realmente, árece ser bem linda.

    Teatro de Rua, Balé de rua, todos sempre interessantes

    ResponderExcluir